sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

A contribuição dos 50 anos de ciência para transformação da agricultura irrigada no Cerrado

 


Por: Maria Emília Borges Alves

Pesquisadora da Embrapa Cerrados

Juliana Miura

Jornalista da Embrapa Cerrados

 

"Muitas pessoas deixam de ganhar o sustento da própria terra para ganhar um salário de fome na capital. Estamos vendo, com esse exemplo, que muitos produtores estão deixando de ir embora para poder investir em suas próprias terras. Isso traz esperança, renovação e dignidade”.

O depoimento de Débora Domingues, ex-prefeita de São João D’Aliança- GO, sintetiza o impacto que a ciência pode ter na vida das famílias agricultoras. Ela se refere aos resultados obtidos pelo projeto Fruticultura Irrigada do Vão do Paranã, iniciado em 2024, que leva sistemas de irrigação e capacitação em manejo da água a agricultores assentados em três municípios goianos. Em dois anos, o número de famílias atendidas passou e 10 para 100, com meta de alcançar 300 famílias até 2027.

Edgar dos Santos e Luciana de Neves também mostram entusiasmo com a fruticultura irrigada. “Sempre foi nosso sonho morar e viver do que produzimos na propriedade. Vimos no projeto essa oportunidade de gerar renda e emprego. Não é bom só para nós, mas também para o município e a região”, conta Luciana, agricultora do município de Flores de Goiás. Esse é o poder transformador da pesquisa agropecuária brasileira.

Na região central do Brasil, a Embrapa Cerrados tem assumido, há 50 anos, o desafio de produzir alimentos em uma região onde, na década de 1970, só havia uma agricultura de subsistência pouco tecnificada. Entre os muitos avanços científicos conquistados, a irrigação se destaca como uma tecnologia decisiva para a segurança alimentar e o desenvolvimento sustentável do país.

 

Irrigação: ciência a favor da vida e da produção

Desde a Antiguidade, a irrigação foi essencial para reduzir riscos climáticos, estabilizar a produção de alimentos e, assim, garantir a segurança alimentar nas regiões onde a escassez de água é fator limitante à produção agropecuária. Hoje, em tempos de mudanças climáticas, seu papel é ainda mais crucial.

No Cerrado, a tecnologia se tornou mais estratégica: viabilizou culturas que não se desenvolveriam em sequeiro, como café, trigo, frutas, e, entre elas, mais recentemente, uvas para vinhos de alta qualidade. Além disso, o cultivo de até três safras anuais só foi possível com a oferta de água regular para os plantios. Com isso, a economia local e o desenvolvimento regional foram alavancados, mudança que vimos acontecer no oeste da Bahia, e está acontecendo no Vale do Rio Paranã, em Goiás.

 

Meio século de pesquisa dedicada à água

O primeiro registro da história da irrigação na Embrapa Cerrados data de 1976, na primeira circular técnica desse centro de pesquisa, com a produção do pesquisador Ady Raul da Silva, intitulada A cultura do trigo irrigada nos cerrados do Brasil Central. A partir daí, dezenas de cientistas, técnicos, assistentes e analistas se dedicaram a desenvolver métodos, equipamentos e estratégias de manejo da água, que mudaram a face da agricultura nacional.

No início da década de 1980, os pesquisadores Euzébio Medrado da Silva, Juscelino Antônio de Azevedo e Morethson Resende desenvolveram e testaram o método do tubo janelado, tecnologia capaz de controlar melhor a quantidade de água aplicada em sistemas de irrigação por superfície.

Sobre sua contribuição, Silva, pesquisador aposentado da Embrapa Cerrados, lembra que concentrou sua pesquisa no desenvolvimento e na adaptação de técnicas de manejo da água aplicáveis a culturas como trigo, cevada e café. Entre seus trabalhos, sobressaiu-se a adoção de tensiômetros no manejo do café irrigado por pivô central e gotejamento no oeste baiano. Essa tecnologia possibilitou o monitoramento da umidade do solo para tomada de decisões operacionais precisas no campo. O resultado permitiu a implementação de métodos racionais de irrigação, com redução de pelo menos 20% da água aplicada nas lavouras de café, fortalecendo a sustentabilidade técnica, hídrica e econômica da cafeicultura regional.

Azevedo destaca a importância dos tensiômetros, juntamente com as estações meteorológicas, para a eficácia do manejo da irrigação, capazes de determinar o momento e a quantidade de água a ser aplicada. “Irrigar sem desperdício de água deve ser o principal objetivo de um bom agricultor irrigante”, defende o também pesquisador aposentado da Embrapa Cerrados.

Com a chegada dos métodos de irrigação pressurizada – pivô central, aspersão e gotejamento –, as pesquisas avançaram ainda mais. Azevedo lembra que o método por aspersão se tornou o mais recomendado para o Cerrado, por ter condições de atender grandes áreas com eficiência. O pivô central, explica Azevedo, alcança eficiência em torno de 85% e exige mínima mão de obra – uma única pessoa é capaz de cuidar de até quatro equipamentos, o que abrange mais de 450 hectares. No entanto, para frutas e hortaliças, a opção é pelos métodos de gotejamento e microaspersão, que permitem irrigações localizadas, com eficiência acima de 90%.

 

Aumento da equipe e do impacto das pesquisas

No final dos anos 1980 e início dos anos 1990, outros pesquisadores – Jorge Cesar dos Anjos Antonini, Joaquim Bartolomeu Rassini, Antônio Eduardo Guimarães dos Reis, Antônio Fernando Guerra e Sebastião Francisco Figueiredo – integraram-se à equipe da Embrapa Cerrados. Tempos depois, foi a vez dos pesquisadores Jorge Enoch Furquim Werneck Lima, em 2001; Lineu Neiva Rodrigues, em 2002; Omar Cruz Rocha, em 2004; Vinícius Bof Bufon, em 2010; e Maria Emília Borges Alves, em 2019.

Guerra e Rocha deram continuidade às pesquisas com café; dessa vez, focadas no desenvolvimento do estresse hídrico controlado, com o apoio do Consórcio Pesquisa Café. Essa estratégia proporciona a sincronização do desenvolvimento das gemas florais do café e uma floração abundante e uniforme.

Associada a outras práticas culturais, a tecnologia de irrigação permite a obtenção de até 85% de cerejas do café no momento da colheita, resultando em substancial ganho em qualidade do café e em uma economia de mais de 30% de água e energia usadas na irrigação. Tal economia se mostra ainda mais importante ao se considerar que ela ocorre exatamente no momento em que outras culturas competem por esses insumos.

Considerando-se “recém-chegada” à Embrapa Cerrados, Maria Emília Borges Alves, autora deste artigo, sabe que o conhecimento produzido pelos colegas que a antecederam e a troca com os que estão na ativa fortalecem sua trajetória. Seus trabalhos têm foco na irrigação de cultivos anuais – mais especificamente, em gotejamento subsuperficial e estudos sob a ótica do risco climático.

Ao longo desses 50 anos, vários cultivos passaram a ser objeto de estudos. Foram estabelecidas recomendações para o manejo da água para cultivos anuais e perenes, como trigo, mandioca, maracujá, café, cevada, soja, cana-de-açúcar, palmeiras como o dendê, a macaúba e, mais recentemente, o açaí, entre outros.

 

Integração de saberes e novas fronteiras

Ao longo das décadas, as pesquisas da Embrapa Cerrados receberam contribuições de outras áreas de conhecimento – como a física do solo, a agrometeorologia, a modelagem e o geoprocessamento. A integração desses outros conhecimentos fortaleceu a capacidade de compreender o Cerrado em suas múltiplas escalas – das parcelas agrícolas às grandes bacias hidrográficas.

Não se pode deixar de mencionar a área de recursos hídricos, cujas pesquisas na Embrapa Cerrados começaram no final dos anos 1990, ganhando maior ênfase com a incorporação dos pesquisadores Jorge Enoch Furquim Werneck Lima, Lineu Neiva Rodrigues e Eduardo Cyrino de Oliveira-Filho à equipe, nos anos de 2001, 2002 e 2002, respectivamente.

Os trabalhos para a gestão de recursos hídricos confirmaram com números o título de “berço das águas do Brasil” atribuído ao Cerrado, uma vez que o bioma contribui para a formação de doze grandes regiões hidrográficas brasileiras.

Mais recentemente, os estudos têm evoluído, voltando-se para a utilização de sensores (de umidade do solo e de variáveis meteorológicas) e para o desenvolvimento de softwares e aplicativos que facilitem o manejo da irrigação, buscando fornecer ainda mais segurança ao agricultor.

O pesquisador Lineu Neiva Rodrigues tem se dedicado ao desenvolvimento de ferramentas computacionais para proporcionar aumento da produtividade com o uso da água, com geração de dados e informações para subsidiar o planejamento do uso dos recursos hídricos e fortalecer políticas públicas. O pesquisador acredita que os produtos tecnológicos, como softwares e plataformas de conhecimento, são um legado para a sociedade e sua expectativa é de que todo esse material acumulado contribua para o desenvolvimento sustentável da agricultura irrigada no Cerrado.

 

Impactos para o Brasil e para o mundo

Antes desacreditado, onde quase nada se produzia, hoje, o Cerrado concentra mais de 40% da área irrigada no país e responde por cerca de 60% da produção agrícola nacional. Em parte, o segundo número é reflexo do primeiro. As toneladas de alimentos levadas do Planalto Central brasileiro para outras regiões do Brasil, e mesmo para outros países, só se tornaram possíveis com o uso adequado da água.

A lição é clara: a agricultura irrigada não é simplesmente a agricultura de sequeiro com adição de água, como ensina o pesquisador Juscelino Antônio de Azevedo. É ciência aplicada, resultado de cinco décadas de pesquisa, inovação e dedicação de centenas de profissionais que ajudaram a transformar o Cerrado em um pilar da segurança alimentar do país.

 

* Artigo original publicado na revista Item - Irrigação e Tecnologia Moderna, edição nº 129 (2025).

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Conab realiza leilão para compra de 95 mil toneladas de milho em grãos para o Programa de Venda em Balcão

Compra do cereal visa recompor os estoques do Programa de Venda em Balcão (ProVB)

O Programa de Vendas em Balcão (ProVB) pode ter um reforço de até 95 mil toneladas nos estoques de milho que é vendido pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) a pequenos criadores animais, sobretudo aqueles que vivem no interior, em locais mais distantes dos grandes centros e das zonas de maior produção. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) publicou os editais referentes à compra de 95 mil toneladas de milho, que serão utilizadas para abastecer o ProVB. Os leilões estão marcados para o próximo dia 18, a partir das 9 horas, e são realizados pelo Sistema de Comercialização Eletrônica da Conab (Siscoe), na modalidade “viva-voz”. 

No primeiro leilão (Aviso Nº 101/2025), a Conab pretende adquirir 73 mil toneladas de milho em grãos, a granel, da safra 2024/2025. O milho a ser adquirido deverá ser entregue nos armazéns da própria Companhia nos seguintes estados: Bahia (4 mil toneladas), Distrito Federal (4 mil toneladas), Goiás (8 mil toneladas), Maranhão (9 mil toneladas), Minas Gerais (16 mil toneladas), Mato Grosso do Sul (12 mil toneladas), Mato Grosso (10 mil toneladas) e Paraná (10 mil toneladas).

Já a segunda operação (Aviso Nº 102/2025) se refere à compra de 22 mil toneladas do cereal. Este produto deverá ser entregue nos armazéns de terceiros credenciados para guarda de estoque públicos e indicados no edital nos estados da Bahia (6 mil toneladas), Goiás (7 mil toneladas) e Sergipe (9 mil toneladas).

Podem participar dos leilões os produtores rurais, cooperativas, associações e comerciantes, cadastrados perante a Bolsa de Mercadorias por meio da qual pretendam realizar a operação, e registrados, na data da realização do leilão, no Sistema de Cadastro Nacional de Produtores Rurais e Demais Agentes da Conab (Sican), além de estarem em situação regular no Sistema de Cadastramento Unificado de Fornecedores (Sicaf) e demais exigências dos editais.

Estas operações de compra de milho voltadas para o abastecimento do Programa de Venda em Balcão estão autorizadas pela Medida Provisória nº 1.325/2025, publicada no Diário Oficial da União (DOU) no final de novembro, pelos ministérios do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), da Agricultura e Pecuária (Mapa) e da Fazenda (MF), a partir da Portaria Interministerial nº 34, publicada no DOU desta sexta0feira (12) .

O reforço nos estoques públicos de milho vendido pela Conab vai auxiliar pequenos criadores de animais em todo o país, sobretudo aqueles produtores de ovos, leites e carnes, situados em locais mais distantes dos grandes centros e das zonas de maior produção, e que utilizam o produto para a alimentação dos seus plantéis.

Os parâmetros de preço de abertura serão informados por meio de comunicado específico com antecedência mínima de dois dias úteis da data de realização do pregão, quando estarão disponíveis no portal da Conab. Todas as informações, como a íntegra do aviso e demais comunicados, bem como os resultados destas operações podem ser acessados  no Portal de Comercialização da Companhia.

Serviço:
Leilões para compra de milho para abastecer o ProVB
Data: quinta-feira, 18 de dezembro 2025
Horário: a partir de 9h
Avisos Nºs 101 e 102
Informações e comunicados no Portal da Conabhttps://portaldecomercializacao.conab.gov.br/#/home

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Curso técnico gratuito em Agropecuária oferece formação prática em um dos setores que mais crescem no Brasil

 


Com inscrições abertas até 15 de dezembro para o 1º semestre de 2026, escola mantida pela Fundação Salvador Arena prepara jovens para atuar no campo, setor que deve representar quase 30% do PIB brasileiro em 2025.

Foto: vista aérea da Escola Técnica Etasa.


São Paulo, outubro de 2025 – O agronegócio segue como um dos motores mais vigorosos da economia brasileira, com avanços que reafirmam sua força e capacidade de gerar oportunidades. Segundo dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e do Cepea/USP, o PIB do agronegócio cresceu 6,49% no primeiro trimestre de 2025, impulsionado pela alta produtividade, pela adoção de tecnologias e pela crescente demanda global por alimentos. De acordo com o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), as exportações do setor somaram mais de US$ 82 bilhões apenas no primeiro semestre, respondendo por quase metade das vendas externas do país.


A agropecuária, que engloba tanto a agricultura quanto a pecuária, é um segmento essencial dentro desse universo, responsável por sustentar a cadeia produtiva de grãos, carnes, leite, frutas e outros alimentos que abastecem o Brasil e o mundo. Além de seu peso econômico, o setor é cada vez mais reconhecido por sua capacidade de inovação, com o uso crescente de tecnologias de precisão, biotecnologia, gestão ambiental e práticas sustentáveis que transformam o modo de produzir e preservar o meio ambiente.


É nesse cenário de expansão e modernização que a Escola Técnica Agropecuária Engenheiro Salvador Arena (ETASA), mantida pela Fundação Salvador Arena, anuncia a abertura das inscrições para o curso técnico gratuito em Agropecuária, com ingresso previsto para o primeiro semestre de 2026. Podem se inscrever candidatos que tenham concluído o Ensino Médio até a data da matrícula.


Localizada em Santa Rita do Passa Quatro (SP), a ETASA representa uma oportunidade única para jovens que desejam iniciar carreira em um dos setores mais estratégicos e promissores do país. As inscrições são gratuitas e devem ser realizadas até 15 de dezembro de 2025, pelo site oficial www.escolatecnicasalvadorarena.org.br.


O curso técnico em Agropecuária oferece 40 vagas e tem duração de dois semestres letivos, com aulas de segunda a sexta-feira, das 8h às 16h10. Totalmente gratuito, o programa abrange disciplinas voltadas às áreas de Agronomia, Zootecnia, Gestão Ambiental e Engenharia Agrícola, capacitando o estudante para atuar em toda a cadeia produtiva — desde o plantio e manejo de culturas até o processamento, comercialização e gestão de empreendimentos rurais.


Um dos principais diferenciais da ETASA é a integração entre teoria e prática. A escola compartilha suas instalações com uma empresa agroindustrial própria, onde os alunos vivenciam o cotidiano da produção rural e industrial, participando de atividades como cultivo de soja, milho e café, além da criação de gado e aves. Essa estrutura possibilita uma formação sólida, aplicada e conectada às demandas reais do mercado.


Além da gratuidade do curso, a ETASA oferece alimentação durante o período escolar, uniforme inicial, material didático completo e apoio social a alunos em situação de vulnerabilidade, por meio de três modalidades de bolsa: Permanência, Transporte e Alimentação.


A experiência é complementada pelo trabalho do Núcleo de Apoio às Carreiras (NAC), que promove workshops, apoia a busca por estágios e estimula o empreendedorismo. O objetivo é preparar o aluno para atuar de forma técnica, sustentável e ética no setor produtivo, com domínio da legislação ambiental e de produção, além da capacidade de planejar e desenvolver projetos que contribuam para o fortalecimento da agricultura familiar e da agropecuária regional.


Para a diretora da ETASA, Cristina Favaron Tugas, o curso é mais do que uma formação técnica:

“A agropecuária é uma das bases mais importantes da economia e da sustentabilidade no Brasil. É um setor que continua crescendo, inovando e abrindo novas oportunidades de trabalho e desenvolvimento regional. Nosso objetivo é formar profissionais completos, que entendam o campo como um espaço de produção, tecnologia e responsabilidade ambiental. Esta é uma chance de transformar suas vidas e contribuir para o futuro da agropecuária brasileira.”


Com foco em excelência prática, sustentabilidade e inclusão social, a ETASA forma profissionais prontos para enfrentar os desafios de um setor em constante transformação, contribuindo para o desenvolvimento econômico, ambiental e social do país.

A contribuição dos 50 anos de ciência para transformação da agricultura irrigada no Cerrado

  Por:  Maria Emília Borges Alves Pesquisadora da Embrapa Cerrados Juliana Miura Jornalista da Embrapa Cerrados   "Muitas pessoas deixa...